Historia Cultural

                                                                                                                                                                         HISTÓRIACULTURAL[1]  

                                              Roberta Freire de Oliveira[2]

Resumo

O presente artigo tem como objetivo principal fornecer um conhecimento da trajetória da História Cultural, bem como as designações do termo cultura. O surgimento da História Cultural seus principais ancestrais, seu berço dentre as crises dos paradigmas explicativos (marxismo e annales). O trabalho realizado que utiliza de fontes bibliográficas busca traçarem as diferenças da História Cultural Clássica para Nova História Cultural, suas principais bases epistemológicas, suas principais aproximações com a antropologia e a linguagem como também suas principais contribuições.

Palavras- chaves: cultura, representação, mentalidade, imaginário.

 

Abstract

The present article has as main goal to supply trajectory knowledge of the Cultural History, as well as the term culture designations. The appearance of the Cultural Their history ancestral main, your cradle among the crises of the explanatory paradigms (Marxism and annals). The accomplished work that uses of bibliographical sources search trace the differences of the Classical Cultural History for New Cultural History, their main bases epistemological, their main approaches with the anthropology and the language as well as her main contributions.

Key-words: Culture, representation, mentality, imaginary.

 

A História Cultural é uma corrente historiográfica que pretende compreender as representações das sociedades. Karl Lamprecht foi pioneiro historiador cultural. Peter Burke em sua obra O que é História Cultural? Objetiva apresentá-la. Tudo que tem história, ou antes, laços simbólicos integrados num conjunto de códigos a que se chama de “cultura” estão passíveis de ser investigado pela História Cultural.  No entanto, a cultura parece ser hoje tão polissêmica a ponto de inviabilizar uma definição adequada do termo. (PESAVENTO, 2005)          .

Uma vertente que ainda encara muitos desafios, mediante o complexo tema: Cultura. Antes de prosseguirmos sobre essa corrente historiográfica, é necessário lembrarmos o que é História e Cultura.

A palavra História é muito antiga e foi definida por vários historiadores. Marc Bloch define em sua obra Apologia da História: “A Ciência dos homens no tempo”. Sendo o tempo: “realidade concreta e viva, submetida à irreversibilidade de seu impulso, é o próprio plasma em que engastam os fenômenos e como lugar de sua inteligibilidade”.

Portanto, a História se propõe a compreender os fatos que marcaram os homens. Através dos testemunhos, artefatos, obras, máquinas, instituições. Cabe ao historiador a missão de verificar a veracidade de tais fontes históricas.

Cultura é um termo tão comum ao nosso cotidiano que muitas vezes não temos noção de sua complexidade. O que pode ser considerado cultura ou não? Peter Burke em sua obra O que é História Cultural? dedica-se a discutir essa questão. O termo cultura referia-se anteriormente às artes e ciências. Com o tempo passou a significar também aos seus equivalentes populares como a música popular, folclore, medicina popular. Na última geração, o termo abrange artefatos, práticas.

Roger Chartier nos apresenta um conceito sobre esse complexo termo em sua obra A história ou a leitura do tempo, o autor cita que: “o termo cultura pode dentre as suas significações apontar para as práticas comuns através das quais uma sociedade ou um individuo vivem e refletem sobre sua relação com o mundo, com os outros ou com eles mesmos”. (CHARTIER, p.34).  O cientista, e de uma forma especial o historiador cultural não deve julgar os fatos, mas compreendê-los, buscar criticamente a realidade, abstendo-se de todo preconceito, de toda pré-noção.

Peter Burke em sua obra citada acima busca apresentar essa corrente da historiografia, mas objetiva caracterizar essa nova maneira de compreender a história.

A partir de 1970, com a “Virada Cultural” houve uma redescoberta no campo da História, a História Cultural.  Sandra Jatahy em sua obra História & História Cultural cita que a virada nos estudos históricos produzida pela História Cultural pode ser situada à “mudança nos anos 1970 ou mesmo um pouco antes, com a crise de maio de 1968, com a Guerra do Vietnã, a ascensão do feminismo, o surgimento da New Left em termos de cultura, ou mesmo a derrocada dos sonhos de paz no mundo pós-guerra. Foi quando então se insinuou a hoje tão comentada crise dos paradigmas explicativos da realidade, ocasionando rupturas epistemológicas profundas que puseram em xeque os marcos conceituais dominantes na História. (PESAVENTO, 2005, p. 8).

 Nesse sentido há duas abordagens a serem consideradas: a interna, pertinente a própria disciplina, e a segunda, associada ao que os historiadores fazem ao tempo em que vivem.

Enquanto as demais historiografias se dedicavam a determinada cultural inteira, esta se propõe a fragmentar a disciplina. A abordagem externa refere-se à ascensão da História Cultural com a “Virada Cultural” aliado ao desenvolvimento de outras disciplinas humanas e sociais.

Entre 1800 e 1950 foi uma época em que poderíamos denominar de História Cultural “Clássica”. A hermenêutica bem presente como arte da interpretação. Anteriormente, no tempo da “história do espírito” os historiadores liam poemas, pinturas como evidenciação da cultura. A historiografia dos seguidores de Leopoldo Von Ranke foi considerada amadorística, por não ser baseada em documentos oficiais e não contribuir na constituição do Estado.

Segundo Huizinga, em seu ensaio de 1915 em que discutia sobre a variedade de ideais de vida; pesquisa extensiva sobre a Índia Antiga, França, o objetivo do historiador cultural é retratar os pensamentos, sentimentos de uma época e de que forma se expressavam. Ele se preocupava também com estilo de toda uma cultura.

A História Cultural recebeu contribuições de acadêmicos que não trabalhavam no departamento de História como, por exemplo, Max Weber em sua obra “A Ética Protestante e o Espírito Capitalista” nos apresenta os aspectos culturais como propulsores do modo capitalista.

Por volta de 1930, a palavra “civilização” ganha destaque em obras como The Rise of American Civilization movimento conhecido como “Nova História” ressaltando a história das idéias como a obra de Perry Miller The New England Mind e a Arthur Lovejoy Journal of the History of Ideas projeto interdisciplinar, buscando contribuições da Filosofia, Literatura e História. A questão foi amplamente discutida e desenvolvida. Karl Mannhein, sociólogo, Arnold Hauser e o historiador de arte Frederick Antal, foram estudiosos húngaros que participavam de um grupo de discussão sobre o tema

Entre 1960 e 1990 a prática da cultura foi em direção à Antropologia. Alguns historiadores estudaram Antropologia Econômica. É importante lembrarmos que antes da História Cultural, outras correntes historiográficas contribuíram para o desenvolvimento da disciplina.

A primeira tradição historiográfica compreende de 1848 a 1870. Há nesse período o projeto para se fundar uma verdadeira ciência da História com o projeto do marxismo. É o período de nascimento da “História” dentro das Ciências Humanas, que até então se confundia com o mito, a lenda, literatura e passa para o empenho de reconstruir criticamente os fatos das sociedades humanas. Associa-se ainda ao período às revoluções européias de 1848 e ao nascimento do marxismo que vão possibilitar um sentido crítico aos estudos históricos sob perspectiva cientifica vigente ainda hoje.

O segundo momento, de 1870 a 1929 se dá a efetivação da primeira hegemonia historiográfica. Essa hegemonia da fala alemã nos estudos históricos servirá de modelo para as demais historiografias da Europa e do mundo naquele tempo. Podemos chamar essa historiografia de positivista ou rankiana que é caracterizada pelo culto fetichista e exagerado do texto como única e exclusiva fonte legitima histórica. No entanto vai insistir na importância em aprender a distinção entre fonte histórica e fonte literária, distinguir um documento verdadeiro de um falso.

O período de 1929 a 1968 os historiadores são em sua maioria franceses. Surge um novo projeto dominante, que é o projeto conhecido como a corrente dos Annales que vão dominar a paisagem historiográfica entre 1929 e 1968. Os Annales vão propor uma história do tecido social no seu conjunto. Vão estudar as civilizações, as estruturas e as classes sociais, as crenças coletivas populares, o moderno capitalismo numa nova perspectiva analítica e epistemológica. Propõem uma história interpretativa, problemática, comparativista e crítica.

Com a revolução cultural de 1968 seguiu-se uma quarta e última tradição, em que não há uma hegemonia historiográfica, mas uma situação de policentrismo na inovação e no descobrimento de novas linhas de progresso no estudo historiográfico e se estende até nossos dias. O ano de 1968 é uma fratura definitiva em todas as formas de reprodução cultural da vida moderna. Quase todo tipo de centralidade social vai deixando de existir e passa então a viver uma situação de policentrismo inclusive da historiografia. Então não há uma historiografia hegemônica, mas diferentes variantes da história cultural.

É nesse contexto que a História Cultural ganha espaço para se desenvolver. Sandra Jatahy  analisa que as duas principais posições interpretativas da História criticadas foram o marxismo e o movimento dos Annales, muito embora parte das inovações, para as quais derivam a Nova História Cultural, foram produzidas justamente no interior do marxismo inglês e no movimento dos Annales, na França

Com isso, a autora fez uma verdadeira arqueologia da História Cultural identificando seus precursores e suas (re) descobertas. De Jules Michelet, Jacob Burckhardt, Wilhelm Dilthey a Walter Benjamin, Ernst H. Gombrich, Erwin Panofsky, Paul Ricoeur, Roland Barthes, Michel Foucault, Paul Veyne, Michel de Certeau e Hayden White, muitas mudanças foram ocorrendo nas pesquisas, nos procedimentos e nas abordagens dos estudos históricos, o que, aliás, repercutiu num verdadeiro debate entre modernos e pós-modernos.

As principais mudanças epistemológicas decorrentes da História Cultural estiveram ligadas à reorientação da postura do historiador, a partir dos conceitos de: representação, imaginário, narrativa, ficção e sensibilidades. Para ela as representações “construídas sobre o mundo não só se colocam no lugar deste mundo, como fazem com que os homens percebam a realidade e pautem a sua existência. São matrizes geradoras de condutas e práticas sociais, dotadas de força integradora e coerciva, bem como explicativa do real. Indivíduos e grupos dão sentido ao mundo por meio das representações que constroem sobre a realidade” (PESAVENTO, 2005, p. 39).

Por outro lado, entende-se “por imaginário um sistema de idéias e imagens de representações coletivas que os homens, em todas as épocas, construíram para si, dando sentido ao mundo” (PESAVENTO, 2005, p. 43). No campo dos estudos históricos, ressalta a autora, foi Jacques Le Goff um dos grandes divulgadores desse conceito, até como forma de suavizar as críticas então recebidas pela “História das Mentalidades” (PESAVENTO, 2005, p.45).

Já a “classificação da História como uma narrativa ou discurso sobre o real, por óbvia que possa hoje parecer, já foi utilizada no sentido pejorativo, para designar o relato de um conteúdo organizado em ordem seqüencial, cronológica de acontecimentos de forma descritiva e não-analítica, carente de um pressuposto teórico que possibilitasse a interpretação” (PESAVENTO, 2005, p. 48), como observaram Lawrence Stone, Paul Ricoeur, Paul Veyne (e mesmo Eric Hobsbawm).

Dentro da mudança epistemológica no que se refere à ficção a autora argumenta que tudo que se conhece como História é uma construção da experiência do passado, que tem se realizado em todas as épocas. A História inventa o mundo, dentro de um horizonte de aproximação com a realidade, e a distância temporal entre a escritura da história e o objeto da narrativa potencializa essa ficção. Nesta medida, a História constrói um discurso imaginário e aproximativo sobre aquilo que teria ocorrido um dia, o que implica dizer que faz uso da ficção. (PESAVENTO, 2005, p.53).

Outro conceito ainda se impõe, dizendo respeito a algo que se encontra no cerne daquilo que o historiador do passado pretende atingir: as sensibilidades. As sensibilidades corresponderiam a este núcleo primário de percepção e tradução da experiência humana no mundo (PESAVENTO, 2005, p.56). Mas, para o historiador, é preciso encontrar a tradução externa de tais sensibilidades geradas a partir da interioridade dos indivíduos. (PESAVENTO, 2005, p.57).

          Apesar dos historiadores culturais apresentarem diferenças algumas características são comuns como a crítica a uma suposta agência humana responsável pela História – isto é, o questionamento da existência de um sujeito racional e consciente que tomaria a História pelas mãos. É a recusa do sujeito universal iluminista (“personagem” da História das idéias tradicional / História positivista); e das classes sociais como sujeito histórico transformador (História Social marxista/História Social da cultura).

           O papel da linguagem, o reconhecimento de que os documentos históricos não são uma transparência de dados informativos sobre uma realidade concreta, mas sim textos a serem lidos – o que faz da História um discurso e, não, um relato de uma verdade histórica.

A recusa de categorias totalizantes e de grandes narrativas – em geral, os historiadores culturais não tomam como naturais categorias, como gênero, classe social, raça, etnias, identidade, experiência, e sim, buscam questionar como determinados grupos sociais constroem suas noções de gênero, classe social, raça; qual o sentido dessa construção, e quais as implicações que essas noções possuem para aqueles grupos.

Os historiadores culturais buscam os encontros, descobertas nos campos da religião, música, culinária, vestuário, etc.

Nesse contexto, a narrativa cultural se mostra interessante. Embora a idéia pareça paradoxal, é necessário levá-la em consideração. Para se compreender uma cultura é imprescindível conhecer suas idéias. Tanto as idéias que fazem de si mesmas quanto as que possuem do mundo.

Histórias como a luta pela independência no Terceiro Mundo, o feminismo, são exemplos de tópicos interdisciplinares, envolvendo a História Cultural, buscando desmascarar preconceitos, apresentar as diversas culturas em tais países, a contribuição das mulheres para a cultura.

Georges Duby e Michell Perrot escreveram cinco volumes de História das Mulheres no Ocidente (1990).

A partir de 1970 surge a chamada “Nova História Cultural” NHC, mais eclética. A historiadora norte-americana Lynn Hunt publicou um livro com esse nome, se tornando muito conhecido. Lynn Hunt, introduz o leitor nos domínios do campo da recente história cultural através da possibilidade de reflexão sobre a forma como os homens e as mulheres do passado viviam, pensava e agia na sua sociedade, desafiando os paradigmas da história moderna e sua herança cientificista do século XIX. As intenções de Lynn Hunt com a apresentação da À Nova História Cultural é a de mostrar como o avanço dos estudos na história da cultura acabou induzindo os historiadores a penetrarem em outros campos do conhecimento humano, como a lingüística e a antropologia.

Neste sentido, o ensaio de Aleta Bicrsack, cuja análise confronta as perspectivas teóricas de dois importantes antropólogos como Clifford Geertz e Marshall Sahlins, tem o mérito de nos colocar em contato com o debate que vem ocorrendo atualmente entre a antropologia e a história. Biersack salienta que em A interpretação das Culturas, Geertz propõe para análise os critérios de uma “descrição densa” e no estudo de uma cerimônia pública, como o Negara, descreve um conjunto de idéias cultuadas e significativamente veiculadas. (HUNT,1992,p.104).

 Lynn Hunt através do seu livro nos fornece a dimensão prática da história cultural. Uma ilustração importante ocorre no capítulo”Textos, Impressão, Leituras”, onde Roger Charticr, nos decifra a história dos textos e dos livros enquanto uma história da variação de práticas de leitura. Inspirando-se na indagação levantada por Fernando Rojas no prólogo da sua Celestina (1507), Chartier questiona: por que os textos, literários ou não, são utilizados, entendidos e avaliados de diferentes formas. (HUNT, 1992 p.212).

Ninguém fez mais que Chatier para colocar a história do livro no fluxo principal da história cultural. Em The Cultural Uses of Print, Chartier reitera sua convicção de que a cultura não se situa acima e abaixo das relações econômicas e sociais, nem pode ser alinhadas com elas. Todas as práticas sejam econômicas ou culturais dependem das representações utilizadas pelos indivíduos para darem sentido ao mundo. (CHARTIER, 1987 apud HUNT, 1992, p.25).

Neste sentido a história cultural vai ganhado espaço nos centros acadêmicos primeiro pela facilitação das ciências auxiliares como antropologia, psicologia e a lingüística que através do conhecimento humano possibilitam ao historiador um entendimento maior da subjetividade na ação do sujeito suas representações e significados dados ao mundo. Segundo pela ausência de padrões normativos de explicação que possibilita ao historiador uma visão mais imparcial do seu objeto, dando a possibilidade de perceber o peculiar, o relativo de determinada sociedade, mas com todo compromisso científico do trabalho histórico, devido seu compromisso com as fontes e seu regime de verificabilidade.

Um avanço que antropologia trouxe foi justamente em dizer que uma tribo, por exemplo, tem padrões auto- explicativo isso se torna positivo no sentido da compreensão que toda sociedade possui em determinado momento histórico uma forma de representar o mundo, cabendo ao historiador identificá-la e produzir o discurso histórico. Nada mais significativo que essa história contemporânea tenha como objeto a transitoriedade da cultura que justamente remonta o sentido das atitudes dos homens no tempo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas

MALERBA, Jurandir: Historiografia Contemporânea em perspectiva crítica – Carlos Aguirre Rojas (organização) – Editora EDUSC – Capítulo 1 – Tese Sobre o Itinerário da Historiografia do Século 20: Uma Visão Perspectiva de Longa Duração. 2007.

BLOCH, Marc Leopold Benjamim, 1886-1944. Apologia da história, ou, O ofício do historiador/ Marc Bloch; prefácio, Jacques Le Goff; apresentação à edição brasileira, Lilia Moritiz Schwarcz; tradução, André Telles. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.2001.

HUNT, Lynn: A Nova História Cultural- Tradução Jefferson Luiz – São Paulo- Editora Martins Fontes, 1992.

PESAVENTO, Sandra Jatahy: História & História Cultural- Belo Horizonte- Editora Autêntica, 2005.

BURKE, Peter: O que é história cultural? Tradução de Sérgio Goes de Paula- Rio de Janeiro-Editora Jorge Zahar, 2005.

CHARTIER, Roger: A história ou leitura do tempo- Tradução Cristina Antunes- Belo Horizonte- Editora Autêntica. 2009.


[1] Artigo sobre História Cultural apresentado a disciplina Teoria e Metodologia I sob orientação da professora Janira Sodré Miranda.

[2] Acadêmica do curso de Licenciatura Plena em História do Instituto Federal de Ciência Educação e Tecnologia do Estado de Goiás.